A violência contra a mulher pode acontecer de diferentes formas e nem sempre deixa marcas visíveis. No ambiente de trabalho, os impactos podem aparecer na forma de mudanças de comportamento, insegurança, faltas frequentes, queda de concentração, ansiedade ou isolamento, atestados frequentes e uso de roupas não condizentes com o clima.
Por isso, apoiar uma mulher em situação de violência não significa assumir o controle da situação ou decidir por ela. Significa oferecer escuta, respeito, informação e caminhos seguros para que ela possa buscar ajuda. A Organização Mundial da Saúde recomenda que o primeiro acolhimento seja baseado em escuta sem julgamento, compreensão das necessidades, validação da experiência, atenção à segurança e conexão com serviços de apoio.
Nem sempre uma mulher vai dizer diretamente que está sofrendo violência. Algumas podem ter medo, vergonha, insegurança ou dificuldade de reconhecer que estão vivendo uma relação abusiva. Esse é o ciclo da violência de gênero.
Em um relacionamento abusivo, um ato de violência leva ao ato de arrependimento o que gera o período de lua de mel, que por sua vez leva ao ato de tensão e se repete em um novo ato de violência. Este ciclo foi analisado e cunhado pela psicóloga Lenore Walker em 1979.
Perceber os sinais é o primeiro passo para romper esse ciclo:
- mudanças bruscas de comportamento;
- isolamento ou perda de confiança;
- faltas frequentes ou presenteísmo;
- medo de se expressar;
- queda de concentração ou desempenho;
- erros operacionais em atividades simples que já foram aprendidas;
- ansiedade, choro ou irritabilidade;
- recebimento constante de mensagens ou ligações do parceiro durante o expediente;
- preocupação excessiva em justificar onde está ou o que está fazendo.
Esses sinais, isoladamente, não comprovam uma situação de violência. Mas podem indicar que é necessário se aproximar com cuidado.
Quando uma mulher revela que está sofrendo violência, a primeira reação de quem escuta pode fazer muita diferença.
A orientação da OMS pode ser resumida pelo princípio LIVES:
L – Listen | Escute: permita que ela fale no próprio ritmo, sem interromper ou pressionar.
I – Inquire | Pergunte sobre suas necessidades: procure compreender o que ela precisa naquele momento, inclusive em relação à segurança.
V – Validate | Valide: demonstre que você acredita nela e deixe claro que a violência não é culpa dela.
E – Enhance safety | Amplie a segurança: se for apropriado, converse sobre formas de buscar proteção e reduzir riscos.
S – Support | Apoie: ajude a conectar a mulher a serviços, profissionais e pessoas de confiança.
Na prática, frases simples podem abrir espaço para o acolhimento:
- “Eu estou aqui para te ouvir.”
- “Você não precisa passar por isso sozinha.”
- “O que você precisa neste momento?”
O mais importante é evitar julgamentos e respeitar o tempo e as decisões da mulher. E para isso, é importante evitar algumas atitudes:
- culpá-la pelas escolhas do agressor;
- pressioná-la a denunciar ou terminar imediatamente a relação;
- confrontar o agressor por conta própria;
- compartilhar a situação com colegas que não precisam saber.
O papel de quem oferece o primeiro acolhimento não é resolver todos os problemas da vítima, mas sim ajudá-la a acessar apoio e proteção, pois na maioria dosa casos muitas não sabem onde procurar ajuda e a empresa se torna um local de apoio antes dos dispositivos oferecidos pelo Estado
O Ministério Público do Trabalho e a ONU Mulheres afirmam que o suporte oferecido no trabalho é decisivo para que a mulher consiga romper o ciclo de violência.
Uma rede de apoio corporativa pode envolver:
- canais seguros e confidenciais de escuta;
- profissionais especializados em atendimento psicossocial;
- capacitação de lideranças e equipes de RH;
- protocolos claros para acolhimento e encaminhamento;
- orientação sobre serviços públicos e especializados;
- políticas que favoreçam segurança, proteção e manutenção do vínculo profissional;
- articulação com redes psicológicas, sociais e jurídicas quando necessário.
Em situações de emergência ou risco iminente, a prioridade é a segurança, ligue 190. Para esclarecer dúvidas ou fazer denúncia, Ligue 180, canal que oferece orientação e um espaço seguro para receber denúncias. É importante que colegas e empresas não tentem substituir os serviços especializados. O papel da rede corporativa é acolher, orientar e facilitar o acesso ao suporte adequado.
Na Mental Clean, o NEV – Núcleo de Enfrentamento à Violência oferece suporte especializado para organizações que desejam estruturar essa rede, com acolhimento, orientação e acompanhamento psicossocial.
Apoiar uma mulher em situação de violência não significa ter todas as respostas. Significa não ignorar os sinais, não culpabilizar, respeitar sua autonomia e ajudá-la a encontrar caminhos seguros que mantenham sua independência.