Agosto Lilás: Violência contra a mulher — quais os fatores por trás?

A violência contra a mulher vai muito além de conflitos isolados ou de relacionamentos que simplesmente “não deram certo”. Trata-se um fenômeno complexo, sustentado por fatores culturais, sociais, psicológicos e estruturais que precisam ser compreendidos para que possa ser prevenido e enfrentado.

Os números demonstram a dimensão do problema. A Organização Pan-Americana da Saúde estima que aproximadamente 1 em cada 4 mulheres de 15 a 49 anos na América Latina e no Caribe já sofreu violência física ou sexual praticada por um parceiro íntimo ao longo da vida (OPAS, atualização de 2025).

No Brasil, o cenário continua alarmante. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou 1.568 feminicídios em 2025, crescimento de 4,7% em relação a 2024. Dados referentes aos casos ocorridos entre 2021 e 2024 revelam ainda que 97,3% dos agressores eram homens e que mais de 80% dos casos, o crime foi praticado pelos atuais ou ex-companheiros das vítimas (FBSP, 2026).

A Organização Mundial da Saúde reconhece a desigualdade de gênero como um dos principais fatores estruturais associados à violência contra mulheres e meninas. Esse padrão pode começar de maneira aparentemente sutil: tentativas de controlar roupas, amizades, dinheiro ou redes sociais e desqualificação das opiniões da mulher. Com o tempo, essas atitudes podem evoluir para ameaças, violência psicológica, sexual e física.

A violência também é favorecida pelo comportamento de culpar a vítima. Perguntas como “por que ela não foi embora antes?” ignoram que romper uma relação violenta pode envolver medo, dependência econômica, ameaças e ausência de uma rede segura de proteção.

Com o avanço da tecnologia, novas dinâmicas de abuso passaram a ocorrer com maior frequência. A divulgação não consentida de imagens pessoais, a perseguição virtual (stalking) e controle de senhas configuram formas de violência digital — frequentemente desdobramentos da violência psicológica e moral. Nos cinco primeiros meses de 2026, o Ligue 180 registrou 16.725 ocorrências de violência digital contra mulheres, crescimento de 188,6% em relação ao mesmo período de 2025 (Ministério das Mulheres, 2026). Além dos danos físicos, a violência produz impactos profundos sobre a saúde mental, podendo desencadear ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático, dificuldades para dormir e aumento do risco de comportamento suicida, segundo a Organização Mundial da Saúde (2025). Esse sofrimento pode permanecer silencioso por muito tempo e afetar a vida pessoal e profissional.

Por isso, a violência contra a mulher também precisa ser compreendida como uma questão de saúde mental e saúde pública. Acolher emocionalmente não substitui as medidas jurídicas e de proteção, mas ajuda a mulher a reconstruir sua autonomia, dignidade e bem-estar emocional.

Para muitas mulheres, o ambiente profissional pode representar um dos poucos espaços fora do controle direto do agressor. Por esse motivo, colegas, lideranças e equipes de Recursos Humanos devem se atentar a sinais importantes.

Faltas frequentes, choro, isolamento, alterações bruscas de comportamento, queda de desempenho, medo de se expressar, mensagens constantes do companheiro durante o expediente, sintomas de ansiedade, depressão, dores recorrentes ou lesões sem explicação clara podem ser sinais de que algo não está bem.

Esses comportamentos não confirmam, isoladamente, uma situação de violência, mas justificam uma aproximação cuidadosa, empática e sigilosa.

A conversa deve ocorrer em ambiente privado, preservando a confidencialidade das informações e evitando julgamentos ou pressões. Caso a mulher não queira falar, sua decisão deve ser respeitada.

O mais importante é informar sobre os canais de apoio e garantir que ela possa procurar ajuda quando se sentir segura.

Organizações podem ajudar a interromper ciclos de violência ao capacitar lideranças e equipes de RH sobre o tema, criar protocolos claros, oferecer canais confidenciais de acolhimento e estabelecer parcerias com profissionais das áreas psicológica, jurídica e social.

No contexto organizacional, programas especializados, como o NEV — Núcleo de Enfrentamento à Violência, da Mental Clean – são fundamentais para ampliar a proteção às mulheres ao oferecer acolhimento qualificado e apoio em situações de maior complexidade.

Segundo dados internos, o programa já atendeu mais de 1.800 mulheres em mais de 300 empresas, com índice de satisfação de 98 em 100 e nenhum caso de feminicídio entre as mulheres acompanhadas durante seus nove anos de atuação. O Agosto Lilás reforça que compreender os fatores que sustentam a violência é um passo essencial para interromper esse ciclo. Informação qualificada, autonomia, acolhimento e acesso a redes de proteção salvam vidas e fortalecem o enfrentamento da violência contra a mulher.