Em 2026, falar sobre saúde mental já não pode ser uma conversa restrita aos momentos de crise.
A Organização Mundial da Saúde estima que 727 mil pessoas morreram por suicídio em 2021, um número que revela a dimensão de um importante problema de saúde pública. Entre jovens de 15 a 29 anos, o suicídio esteve entre as principais causas de morte no mundo. No Brasil, entre 2010 e 2021, a taxa de mortalidade por suicídio aumentou 42%, passando de 5,2 para 7,5 óbitos por 100 mil habitantes.
Mas números não contam toda a história. Por trás de cada estatística existe uma pessoa, uma trajetória, relações, perdas, contextos e, muitas vezes, um sofrimento que não foi percebido ou compartilhado.
É nesse ponto que o Setembro Amarelo nos convida a uma reflexão que vai além da campanha: estamos preparados apenas para reconhecer uma crise ou estamos construindo relações e ambientes em que as pessoas possam pedir ajuda antes que ela aconteça?
Falar pode ser uma forma importante de prevenção. Mas falar, por si só, não resolve tudo.
Uma conversa acolhedora não substitui o cuidado profissional, não elimina fatores de risco e não significa que teremos respostas para o sofrimento do outro. Seu papel é outro: perceber, aproximar, escutar e favorecer o acesso ao cuidado adequado.
Falar sobre suicídio aumenta o risco?
Essa é uma das dúvidas que ainda cercam o tema.
A ideia de que mencionar o suicídio necessariamente aumenta a probabilidade de uma ocorrência é um mito. Abordar o assunto de maneira responsável, direta e acolhedora pode abrir espaço para que uma pessoa fale sobre aquilo que está vivendo e para que receba ajuda.
O silêncio, por outro lado, pode manter o sofrimento invisível.
Isso não significa abordar o tema de qualquer maneira. Conversas sobre suicídio exigem sensibilidade, escuta e responsabilidade, evitando julgamentos, culpabilização, romantização ou simplificações.
Também é importante compreender que não existe uma fórmula capaz de identificar com certeza uma crise suicida. O Ministério da Saúde orienta que sinais de alerta não sejam analisados isoladamente. Mudanças importantes de comportamento ou manifestações de sofrimento precisam ser compreendidas dentro do contexto de cada pessoa.
O que pode chamar nossa atenção no ambiente de trabalho?
No cotidiano profissional, algumas mudanças podem indicar que uma pessoa está passando por um período de sofrimento e merecem atenção, especialmente quando são significativas, persistentes ou diferentes do comportamento habitual.
Entre elas:
- isolamento ou afastamento dos colegas;
- mudanças importantes de comportamento;
- alterações repentinas no desempenho ou na rotina;
- irritabilidade, agitação ou retraimento incomuns;
- manifestações de desesperança ou de que as coisas não vão melhorar;
- falas relacionadas à falta de sentido, à morte ou à impossibilidade de continuar;
- mudanças importantes nos cuidados pessoais;
- sofrimento associado a acontecimentos significativos, como luto, separação, perdas financeiras ou profissionais.
Um sinal isolado não significa, necessariamente, risco de suicídio. O mais importante é perceber mudanças relevantes, considerar o contexto e não transformar comportamentos em diagnósticos.
Quando algo chama nossa atenção, uma possibilidade é simplesmente se aproximar.
Como iniciar uma conversa difícil?
Não é necessário encontrar a frase perfeita. Uma conversa pode começar de maneira simples: “Percebi que você não parece estar bem ultimamente. Quer conversar?”. Ou: “Tenho percebido algumas mudanças em você e fiquei preocupado. Como você está?”. A partir daí, o mais importante é escutar.
Escutar não significa interromper para oferecer soluções. Não significa minimizar o sofrimento com frases como “isso vai passar” ou “você precisa ser forte”. E também não significa assumir para si a responsabilidade de resolver a situação.
Significa estar presente, demonstrar preocupação genuína e permitir que a pessoa fale.
A Organização Mundial da Saúde recomenda demonstrar empatia e preocupação, incentivar a pessoa a falar e ouvi-la sem julgamentos. O Ministério da Saúde também orienta buscar um momento apropriado e um local tranquilo, demonstrar disponibilidade para ouvir e oferecer apoio.
Às vezes, a pergunta mais importante não é “o que eu posso fazer para resolver?”, mas “como posso ajudar você a não atravessar isso sozinho?”
Segurança psicológica também é prevenção
Para falar sobre sofrimento, é preciso existir espaço para falar. Em ambientes nos quais demonstrar vulnerabilidade é interpretado como fraqueza, admitir que não está bem pode se tornar ainda mais difícil.
Amy C. Edmondson define segurança psicológica como uma percepção compartilhada de que o ambiente é seguro para assumir riscos interpessoais — como fazer perguntas, apresentar ideias, admitir erros ou manifestar preocupações.
No contexto da saúde mental, essa perspectiva amplia a discussão: não basta orientar as pessoas a pedir ajuda se o ambiente em que elas estão inseridas não favorece esse pedido.
Por isso, a prevenção precisa ser também uma responsabilidade coletiva. Nas organizações, isso envolve fortalecer relações de confiança, preparar lideranças para reconhecer situações de sofrimento, estabelecer fluxos claros de acolhimento e encaminhamento e atuar sobre fatores que possam contribuir para o adoecimento relacionado ao trabalho.
Nesse sentido, a gestão dos fatores de risco psicossociais e as diretrizes da NR-01 reforçam a importância de uma abordagem estruturada e preventiva da saúde e segurança no trabalho.
O que fazer quando o sofrimento é intenso?
Uma conversa de acolhimento é importante, mas não substitui uma avaliação profissional.
Quando houver preocupação significativa com a segurança da pessoa, é importante favorecer o acesso a profissionais e serviços especializados.
No Brasil, a rede pública de saúde conta com serviços como as Unidades Básicas de Saúde e os CAPS. O CVV também oferece apoio emocional pelo telefone 188, gratuitamente, 24 horas por dia.
Em situações de risco imediato ou emergência, a orientação é buscar atendimento de urgência, como o SAMU (192) ou uma unidade de pronto atendimento.
Nessas situações, não é necessário lidar com tudo sozinho. Acionar a rede de cuidado também é uma forma de acolher.
Prevenção começa antes da crise
O Setembro Amarelo ganha ainda mais sentido quando deixa de ser apenas uma campanha de conscientização e passa a fazer parte de uma cultura cotidiana de cuidado.
Nem sempre será possível perceber o sofrimento de alguém. Nem sempre teremos as palavras certas. Nem sempre uma conversa será suficiente. Mas podemos perceber, perguntar, escutar, acolher e encaminhar. E podemos construir ambientes em que pedir ajuda seja possível antes que o sofrimento se transforme em uma crise.
A Mental Clean acredita que cuidar da saúde mental também significa criar espaços onde as pessoas possam falar sobre o que estão vivendo com segurança, respeito e sem julgamentos. Porque uma conversa pode não resolver tudo. Mas pode abrir um caminho para que a ajuda aconteça.